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9 de Fevereiro de 2010
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Entrevista com Esther Góes

 Gal Oppido

Esther Góes está sempre em busca de novos desafios, principalmente aqueles situados à margem do teatro convencional.

O último deles foi escrever e conceber, junto com o filho Ariel Borghi, que também assina a direção, o monólogo Determinadas Pessoas - Weigel, sobre Helene Weigel, mulher de Bertolt Brecht, atriz e principal intérprete dos papéis femininos do dramaturgo alemão. Nesta entrevista ela fala sobre o espetáculo, sua atuação como Helene, teatro e vida.

O espetáculo esteve em cartaz no Teatro SESC Ginástico em 2008 e a atriz concedeu uma entrevista ao SESC Rio.


 


Por que Helene Weigel?

Uma atriz que fez de sua arte o testemunho e o exercício de uma postura humanista irretocável merece ser lembrada. Quando assumimos, eu e Ariel, a tarefa de conhecer melhor Helene Weigel, tínhamos medo de não encontrar na realidade tudo aquilo que o mito de Helene, embora um tanto nebuloso, parecia transmitir: uma mulher, uma atriz, que parecia encarnar nosso ideal de simplicidade, generosidade, inteligência e talento, que fizeram de sua atuação no cenário artístico e político uma contribuição poderosa e exemplar para os de seu tempo e os que vieram depois.

Nossas pesquisas nos levaram, em Berlim, a encontrar uma das biógrafas de Helene, Sabine Kebir, cujo livro Helene Weigel desce para a fama preencheu e confirmou a veracidade de nossas investigações anteriores. O próprio título do livro é esclarecedor, na verdade é uma afirmação de Brecht sobre a trajetória de Weigel. O que ele quer dizer é que quanto mais simples, mais essencial, mais despojado se tornava o trabalho dessa grande atriz, mais ele se notabilizava. A arte de Helene caminhava para uma depuração permanente, para a ausência de artifícios, apoiada no anticonvencional, na essencialidade do gesto e na comunicação franca com o espectador.
 
A postura humanista dos artistas dos anos 20, que Helene encarna, fala para hoje. Comparada com o momento que vivemos, aquela geração de modernistas surpreende pela coragem, o bom gosto, a veracidade de suas escolhas. Tudo isto acontecendo no auge de uma revolução tecnológica e de uma disputa ideológica acirrada. Há várias semelhanças a ponderar com questões deste nosso começo de século 21.

Quanto tempo levou para escrever a peça? Comente sua passagem pela Alemanha, a sensação de vivenciar a geografia de Helene Weigel e a influência dessa experiência na criação da peça.

Houve o tempo de ler e pesquisar, o tempo de viajar, o tempo de traduzir do alemão as novas informações, de escolher e sintetizar o que era essencial e que deveria ser posto em cena, e o tempo de escrever. E depois o tempo de ensaiar, transpor para o palco essas idéias. Ariel e eu levamos dois anos nesse processo.
 
Berlim é uma cidade em que a história cruza com você a cada esquina. Por exemplo, você passa por um grande prédio com uma praça à frente e vê um estranho monumento: uma imensa pilha de livros, do tamanho de um edifício de muitos andares. Livros grossos e finos, imensos, cada um deles com o nome de um autor: Goethe, Schiller, e, entre eles, Brecht. Você se aproxima, intrigado, e fica sabendo que foi ali que os livros daqueles autores foram queimados pelo nazismo, e o monumento é uma reparação. Dá vontade de chorar.

O Teatro do Berliner Ensemble, lindo, com aquele formato de igreja-castelinho, fica na antiga Berlim Oriental, muito próximo do extinto muro que separou em duas a cidade, no tempo do socialismo russo. Hoje é usado por muitas companhias, inclusive pelo ainda existente Berliner. Seu interior é clássico, como um pequeno teatro municipal. Brecht/Weigel gostavam de contrapor o classicismo dessa arquitetura à modernidade do estilo das peças que representavam. As salas de espera e a bilheteria têm bancos e móveis modernos, nobres, simples. Ainda ressoam como escolha de Helene Weigel, especialista nessa ambientação moderno-socialista. Brecht (sua estátua) está sentado à frente do teatro. Toda uma homenagem e um desejo de não esquecê-los está inscrita em todos esses detalhes que eu descrevo.

Na rua Chaussestrasse, último endereço dos Brecht, que fica ao lado do pequeno cemitério onde ambos repousam, encontramos o Arquivo Brecht, que Helene fundou assim que Brecht morreu, construindo-o no seu próprio apartamento. Também está intacta a sala de trabalho dele, seu quarto e biblioteca, o quarto de Weigel e sua famosa cozinha. Pudemos passear por esses lugares onde eles estiveram, entre móveis ¿garimpados¿ por Helene, móveis comprados usados, de estilo simples e nobre, que era o que mais se aproximava de uma estética socialista, segundo Brecht. Ali prevalece o essencial, o que tem história, o que tem memória e o quotidiano prático, com os cinzeirões para os que vêm discutir teatro, e as panelas para fazer a sopa de goulash. O que percebemos é justamente a intenção de não transformar a vida em pretensão e erudição. Na ordem de importância, a vida humana real é que estabelece o verdadeiro padrão.

O mesmo pode ser visto em Buckhow, a cidadezinha perto de Berlim onde os Brecht tinham sua casa de campo. Há um lago, uma casa e uma pequena casa mais atrás, onde deparamos − surpresa! − com a carroça e o figurino de Mãe Coragem! Na grande sala da casa, a comprida mesa de madeira lavada, as cadeiras e armários de estilos antigos misturados, a bandeira do Berliner (a pomba da paz, de Picasso) numa das paredes, coleções de xícaras e pratos antigos, vestígios de muitas viagens, e sobre a mesa um ingênuo arranjo de flores. As almofadas para cadeiras da Weigel ainda estão lá, tudo parece convidar a conversar, sentar-se à mesa, fumar naquela outra mesa, em volta do cinzeirão, olhar pela janela sem cortinas, de frente para o pátio com suas árvores próximas do lago. Posso dizer que o jeito e o ¿cheiro¿ do Berliner e dos Brecht, você pode sentir na sua forma de viver.

Você já interpretou a pintora Tarsila do Amaral, e a escritora Virginia Woolf, grandes artistas, porém desconhecidas para a maioria do público. Agora, Helene Weigel. Você prefere trabalhar com personagens desconhecidas? Como é isto de uma atriz interpretar uma atriz?

Quando fiz Virgina Woolf, (Não tenha medo de Virginia Woolf), eu e o Elias Andreato construímos um roteiro vida-obra, em que o livro Mrs. Dalloway tinha importância definitiva. Há poucos anos, o livro inspirou um filme ganhador de Oscar, As Horas, e Virginia Woolf já não era tão desconhecida assim. Fiquei feliz ao ver que a visão do roteirista se aproximava tanto do nosso trabalho e que, de alguma forma, já tínhamos dado a conhecer, dentro dos nossos limites, o perfil dessa escritora extraordinária. Da mesma forma, percebo que Tarsila, que levamos ao teatro, vem sendo vista com mais nitidez, como uma das reais articuladoras do modernismo, e dentro de seu exato perfil, que antes me parecia fragmentado entre uma pintora bem-sucedida, uma tímida perdedora para uma Pagu mais confiante, e mero eco das percepções do marido Oswald. Acho que a peça veio esclarecer que a timidez, ou o silêncio intencional, podem esconder uma ação vigorosa e importante. Senão, como relacionar essa semi-obscuridade à criação do quadro Abaporu, que deu origem a todo o movimento antropofágico?

Percebi afinal que este fenômeno é comum a muitas mulheres, empenhadas em preservar relações e impulsionar acontecimentos coletivos de maneira absolutamente generosa, sem pensar nos próprios benefícios. No decorrer do tempo, os traços de sua atuação vão se diluindo.

Com Helene Weigel, é evidente que isto também aconteceu, e não vejo como o teatro épico, a criação do Berliner Ensemble e a difusão mundial da obra de Brecht poderiam passar sem ela. Ela foi uma construtora e mantenedora incansável de processos que resultaram em peças escritas (por Brecht e outros), definição de estilo, montagens e experiências cênicas, além da discussão permanente de todo um movimento teatral. Trabalhou nisto durante décadas, sem medir esforços, atuando como atriz, organizando, produzindo, se comprometendo. A peça Determinadas Pessoas - Weigel quer falar sobre isso. Nela, pela primeira vez, interpreto uma atriz. Só poderia mesmo ser Helene Weigel.

Helene era uma mulher de poucas palavras, dizia as coisas pela arte, no palco. Você acha que a arte é uma forma direta de conscientizar o público sobre questões sociopolíticas?

Acho, sim. Acho, como eles (Brecht/Weigel) achavam, que tudo que diz respeito ao humano pode ser mostrado e discutido no teatro. O teatro, que nasceu na Grécia no século 5 a.C., já nasceu assim, se metendo em tudo, na Guerra de Tróia e na cama de Helena, mostrando política e politicagem, sentimentos e ações humanas, bem como todas as humanas descobertas. Nada pode não interessar ao teatro.

Ao longo da sua trajetória, você já trabalhou com textos de Brecht. Qual o significado de Brecht na sua carreira?

Brecht escreveu, sobretudo, para solicitar às pessoas o uso de sua própria inteligência. Ele sabia que o nazismo seduzia e enganava, e que a sedução nos faz aceitar o irracional como verdade. No decorrer da minha história na arte, voltei-me para Brecht toda vez que o chão parecia faltar, e a confusão se estabelecia. O teatro dele, independente de qualquer tendência política, permanecerá importante por causa desse alívio que a possibilidade de usar sua própria razão pode trazer a qualquer pessoa.

Como é ser dirigida por seu filho, Ariel Borghi?

Trabalhamos juntos por afinidade. Gostamos dos mesmos temas, concordamos na condução. Na direção, o Ariel sempre me surpreende com o longo alcance da sua percepção, no terreno do conteúdo e no da forma. Ao longo deste trabalho, que não queremos terminar, Ariel tem a cada momento direcionado melhor a indicação do terreno seguro para a interpretação da Weigel. Descobrimos juntos pequenos tesouros, simplificadores de sua forma de ser, de pensar e de se comunicar. Temos nos divertido sempre mais com essas descobertas.

Existe alguma montagem que gostaria de realizar ou um diretor com quem ainda não trabalhou e gostaria?

Quero continuar a pesquisar dramaturgia, encontrar formas de comunicar o mundo contemporâneo. Existem muitos diretores importantes, mas com quem você vai trabalhar é uma questão relativa a cada obra.

Alguma atuação sua não lhe proporcionou o resultado esperado?

Gostaria de fazer de novo, algum dia, a Rainha do Hamlet. Acho que hoje conseguiria explorar melhor o papel.

O teatro a fascina mais do que o cinema e a TV?

O teatro me fascina pela liberdade autoral que ele me permite, e porque posso fazer isso diretamente para pessoas de carne e osso. É o momento crucial da arte cênica, este encontro face a face com o público. Mas não menosprezo o poder da lente de uma câmera, e o quanto se pode fazer através dela. Acima de tudo, o que importa é a qualidade da obra.

Qual a expectativa de estrear no Rio, no Teatro SESC Ginástico?

Gostaríamos de interessar as pessoas por este trabalho, torná-las curiosas sobre Helene Weigel. Ela representa uma geração que percorreu todos os desafios do século passado, uma mente arguta, um exemplo formidável de capacidade de resistir, transformar, recomeçar. Helene é uma mulher que eu gostaria de ter conhecido.

 

Revista SESC Rio - setembro/2008 

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